Camilo Simões

Camilo Simões afirma-se como “profissional orientado por objetivos, com uma vasta experiência na gestão de marketing de vários produtos e em storyteller, com o intuito de aumentar o perfil das marcas através de consumer engagement”.

Estudou Engenharia Eletrónica e Telecomunicações na Universidade de Aveiro, passou pela ETIC, em Lisboa, onde estudou som. Um ano depois, rumou a Amesterdão, onde se formou em Artes de Gravação na SAE, School of Audio Engineering em parceria com a Middlesex University de Londres. Trabalhou na MTV, na área de operações e criação de conteúdos musicais e televisivos. Passou, ainda, pelo ADE como Diretor de multimédia, naquela que é a maior conferência de música eletrónica do mundo.

No início não acreditaram em mim porque, como podem imaginar, todas as restantes pessoas eram mais velhas, mais experientes e disseram “quem é este miúdo que não tem experiência nem conhecimento na área?”

Nascido na ilha Terceira, Açores, cresceu no seio de uma família de pessoas culturalmente muito ativas. Considera-se feliz por nascer na ilha açoriana, em torno da natureza, com a liberdade de estar no meio do oceano com os seus cheiros, algo que diz não encontrar em qualquer outra parte do mundo.

Passou por Aveiro, Lisboa, Amesterdão e Roma. Em Amesterdão, chegou a mudar 6 vezes de casa em apenas 1 mês. Procura o bem-estar e a felicidade em tudo o que faz, sempre com os pés bem assentes no chão.

Camilo Simões é, atualmente, Brand Marketing Manager da NIKE Direct, vive em Itália e é um dos mentores da CRIAR TEC. Recentemente, esteve à conversa com a equipa da CRIAR TEC e acredita que o ser humano tem a capacidade de perceber como se deve mover, como entender as pessoas que o rodeia, como viver, perceber o seu espaço e que, se não for criativo o suficiente, vai criar uma série de obstáculos à sua volta.

Nesta entrevista, o mentor destaca a sua persistência de correr atrás daquilo em que acredita, a capacidade de os managers entenderem a parte humana das suas equipas bem como de fomentar relações de proximidade com os seus colaboradores. Acredita que ser um mentor se relaciona com crescimento pessoal, conectar pessoas, perceber as suas necessidades e fazê-las felizes.

CRIAR: Fala-nos um pouco mais sobre onde estudaste mais tarde; a parte universitária da tua carreira; o que fizeste e como chegaste ao primeiro emprego?

Camilo: Desde os meus 12 anos, quando eu gostava de desmontar e reconstruir coisas eletrónicas, queria ir para a Universidade de Aveiro, para o curso de Engenharia Eletrónica e Telecomunicações. Eu era muito: “quero fazer isto”. Era esse o meu objetivo, uma paixão naquela altura. Eu gostava de descobrir coisas, via na televisão, identificava-me, era uma espécie de cientista. Porém, por outro lado, a Terceira é uma ilha de muitos artistas e músicos, culturalmente evoluída e, consequentemente, fiz sempre parte desse mundo maravilhoso. No fim do meu ensino secundário, dediquei-me mais à música e tive 3 anos praticamente sem ligar à escola. Não acabei o 12.º ano e andava por lá a tocar música, tive bandas e toquei pelos Açores e até no continente português. Fiz um ‘monte’ de concertos e deixei a escola para segundo plano. Então, ao fim dos 3 anos, com 21 anos de idade, foquei-me em ingressar no curso que sempre quis desde os 12 anos, na Universidade e na cidade que eu queria. Sei que tive muita sorte por ter conseguido isso. Sorte e trabalho. Comecei o curso em 2001 e frequentei-o durante 5 anos. No entanto, ao longo do 1.° e 2.° anos, comecei a perceber que não era bem aquilo que eu queria. Por engano, estava a querer algo que realmente eu não encontrava porque o curso era maioritariamente de programação e, na altura, habitualmente, os programadores não interagiam criativamente com muita gente e “fechavam-se” um pouco. Eu sabia que não tinha esse perfil, era o contrário: falava com as pessoas, era criativo, queria envolver-me com diferentes formas de pensar e comecei a fomentar este pensamento de: “bem, isto não é o que eu realmente quero!”.

Tinha um certificado de habilitações, a minha guitarra, uma mochila, duas malas de viagem e uma ‘cooler’ com comida açoriana.

Ao fim de 5 anos, disse “preciso de algo mais!”. Então, o caminho a seguir foi, logicamente, encontrar alguma coisa na área da música. Não queria ficar em Portugal a trabalhar nessa área e decidi seguir para Londres ou Amesterdão. Decidi Amesterdão apenas por questões financeiras, porque o curso era metade do preço. Nunca tinha estado em ambas as cidades nem nos países, Reino Unido e Holanda, mas a decisão de ser Amesterdão tornou-se fácil. Antes desta decisão, achei que precisava de instruir-me com os conhecimentos teóricos básicos e fui para um curso de um ano de som em Lisboa. Logo a seguir, fui diretamente para um bacharelato em Amesterdão. Tinha um certificado de habilitações, a minha guitarra, uma mochila, duas malas de viagem e uma ‘cooler’ com comida açoriana. Não tinha hotel nem sítio para ficar, nada, apenas a matrícula na escola e toda esta bagagem e entusiasmo comigo. Fui para Amesterdão em 2008 e comecei o curso. Era um mundo completamente diferente para mim. Iniciei os meus estudos em Artes de Gravação na escola de Engenharia de Som, SAE, uma escola de áudio conhecida mundialmente que tem parceria para licenciaturas com a Middlesex University de Londres. Foi aqui que comecei e acabei o meu curso. Entretanto, eu fazia outras coisas que não estavam relacionadas com a música, mas que me abriram algumas portas. Por exemplo, antes de terminar o curso, comecei a trabalhar para a MTV, para a Viacom. Entretanto, como freelancer, fiz trabalhos de áudio como produtor e sonoplasta, gravei bandas, editei vídeos, trabalhei em eventos ao vivo, multimédia, estagiei na Califórnia, nos Estados Unidos, fiz muitos festivais, até em Portugal, e, na Terceira, fiz parte da equipa organizadora dos concertos das Festas da Praia durante 5 anos. Tudo isto foi fantástico!

Antes de concluir o meu curso de áudio, comecei a trabalhar com a MTV, Viacom. Fiquei lá durante 5 anos, desempenhando várias funções. Comecei como operador de transmissão, garantindo que aquilo que o sinal transmitia era perfeito para vocês enquanto consumidores e telespetadores. Fui crescendo na empresa, tomando papéis com mais responsabilidade e segui a carreira na equipa de operações dos Canais Comedy Central, Paramount Pictures e VIVA. A certa altura, estava a cogerir a função, encarregue de uma equipa de 15 pessoas, liderando lançamentos de canais da empresa na Europa e garantindo que a programação de conteúdos, anúncios e campanhas de marketing era ideal para os canais, para a televisão. Basicamente, fazia com que tudo aquilo que o consumidor final vê fosse atrativo, sem falhas e em concordância com a imagem da marca. Na Viacom, tive o meu primeiro trabalho oficial com contrato remunerado. Acho que o meu primeiro trabalho pago (mas não a contrato) foi na Universidade de Aveiro quando eu estava numa equipa com outros estudantes a visitar escolas secundárias e a convidar os alunos para a nossa Universidade. Era um trabalho puramente de relações públicas e foi o meu primeiro trabalho pago, ainda que não oficial. Assim sendo, o meu primeiro trabalho oficial pago foi mesmo na Viacom.

CRIAR: Qual foi a parte mais memorável da tua carreira em termos de apresentar trabalho feito ou ser criativo em alguma coisa?

Camilo: Deixa-me clarificar algo e dar-te alguns exemplos: operações e criatividade, normalmente, não são considerados compatíveis e, quando estás a contratar alguém, geralmente a conversa é “és uma pessoa de operações ou és uma pessoa de criatividade!”. Infelizmente, ainda há o mindset de que não existe forma destas skillscoexistiram e isto faz com que os generalistas pensem que não encontram o seu rumo, ficam desmotivados porque sentem que não são bons e não pertencem a algo. Eu experienciei isto e penso que a resposta completa talvez responda àquilo que pretendes saber.

A primeira experiência que quero partilhar é da altura em que eu ainda estava na Terceira, era novo, cerca de 20 anos, no ano em que eu não ligava aos estudos e andava a tentar perceber o que queria fazer. As Festas da Praia foram um exemplo claro disto. Na altura, as Festas da Praia estavam numa fase em que existia uma tenda de música eletrónica, que era a única nos Açores, chamada de DreamZone, e, no ano seguinte, a equipa disse “não vamos voltar a fazer porque isto não é o sítio para o fazer, há coisas mais importantes”.

No início não acreditaram em mim porque, como podem imaginar, todas as restantes pessoas eram mais velhas, mais experientes e disseram “quem é este miúdo que não tem experiência nem conhecimento na área?

O meu pai fazia parte da equipa de organização de toda a festa, mas, como vocês entendem, estamos a falar de uma ilha pequena em que tudo o que faz muito barulho normalmente é para “os miúdos” e não para as gerações mais velhas, portanto existia uma espécie de “elefante na sala”. Eu cheguei-me à frente e decidi dizer “Deixem-me ficar à frente disso! Nunca o fiz, mas quero fazê-lo, vamos fazê-lo!”. No início não acreditaram em mim porque, como podem imaginar, todas as restantes pessoas da organização eram mais velhas, mais experientes e disseram “quem é este miúdo que não tem experiência nem conhecimento na área?”. Tentei mostrar que tinha vontade de agarrar no projeto, que estava entusiasmado e tive a sorte de convencer alguns deles que me deixaram seguir em frente.

Não importa de onde vimos e se as pessoas te dizem “não” a toda a hora, só precisas de fazê-lo, de fazer pressão para que aconteça e mostrar um bom trabalho

O primeiro foi em parceria com uma empresa em Portugal continental e correu muito, muito bem, nós estávamos super felizes com o trabalho que tínhamos feito e, no ano seguinte acreditávamos que tínhamos possibilidades de fazer melhor. Juntei-me a um produtor de São Miguel, encontrámos patrocinadores espetaculares que nunca tinham vindo aos Açores nem à Terceira e dissemos “vamos trazer patrocínios que nos garantem valores incríveis e com poupanças enormes para a organização. Vamos fazer uma festa ainda maior e melhor.”. Toda a gente disse algo do género “não acredito nisto, ele é só um miúdo, não vai conseguir.”. Com muito trabalho e humildade, conseguimos seguir em frente e foi um sucesso. Foi o virar da página para o recinto de espetáculos nas Festas da Praia e ainda hoje se vê o reflexo do trabalho realizado nessa altura. Esta parceria durou 5 anos, as Festas da Praia cresceram imenso, os concertos, os DJ, tudo foi como nunca tinha sido antes e isto é algo que me deixa orgulhoso e de que todas as equipas que fizeram parte se devem sentir orgulhosas. Para perceberem, durante esses anos, num dia, eu estava a criar um panfleto para a festa ou a fazer um contrato com um DJ, ou a preparar os elementos técnicos do recinto e, no outro, estava com um bombeiro logo de manhã a limpar toda a tenda de mangueira. Isto tudo para exemplificar que não importa de onde vimos e se as pessoas te dizem “não” a toda a hora. Cria confiança, chega-te à frente e faz acontecer. Depois, quando fazes um bom trabalho, as pessoas vão valorizar-te e acreditar em ti. Os obstáculos existem para nos complicar a vida, mas também para fazer com que possamos ser o melhor de nós.

Quando me mudei para Amesterdão, tive de ser criativo, o que permitiu que mudasse de casa seis vezes num mês e tentasse arranjar soluções para a minha situação, sempre com pensamento positivo. Vivi 3 semanas em dois hostelsdiferentes, conhecendo diversas pessoas e apercebendo-me como funcionava a cidade e que precisava de ser assertivo, criativo e flexível. É necessário percebermos como nos devemos mover, como entender as pessoas que nos rodeiam, como viver, perceber o seu espaço e perceber que, se não formos o melhor de nós, criamos uma série de obstáculos à nossa volta.

Nesse momento, senti “posso não ser bom o suficiente em algumas coisas, ou não ter um plano concreto, mas sou bom em ter os pés assentes no chão, em lutar pelas coisas e em fazê-las acontecer.”.

Outro exemplo de como “virei” a minha carreira foi quando estava a trabalhar para o Amesterdam Dance Event(ADE), que acontece anualmente na cidade e toda a gente desta indústria está lá. Comecei como estagiário a carregar em botões nas conferências, alternando fontes de áudio e vídeo e garantindo que funcionava tudo corretamente e sempre com a atitude de ajudar no que fosse necessário, mesmo que não fosse do meu scope de trabalho. Agora imaginem que, na maior conferência de música eletrónica do mundo, com milhões investidos e milhares de pessoas de todo o mundo, a internet deixa de funcionar. O diretor geral vem falar comigo, na altura estagiário, um miúdo que andava a “pressionar botões”, e diz “A internet não está a funcionar, ninguém sabe o que se passa. Arranja, quero isto a funcionar!”. Vocês podiam ver-me a correr por todo o lado a tentar perceber o que é que se passava. Fui à fonte, ao router, para ver o que se passava. Tu tens equipas com centenas de pessoas experientes, profissionais, com dezenas de anos de experiência em várias áreas e ninguém, na altura, pensou em verificar o mais básico de tudo, a ficha de corrente. Tive sorte e fiz com que a internet voltasse quando liguei tudo de volta à corrente. Quando me perguntaram, eu respondi “está tudo a trabalhar, já está tudo bem”. Esta decisão, assertividade e atitude fez-me ser contratado como Diretor de Multimédia do evento nos anos seguintes, criando a minha própria equipa de audiovisuais, técnicos de multimédia e de operadores de câmara.

Esta mentalidade criativa e lutadora (bulldozer) e a forma como eu cresci e aprendi a viver sendo açoriano fez-me criar momentos destes que contribuíram para o crescimento da minha carreira. Nós, açorianos, temos algo especial, faz parte duma insularidade que nos corre nas veias e que nos dá um edge diferente, uma atitude de bravura de querer e fazer algo mais. Portanto, creio que isto é a melhor expressão de ser criativo e de como fazer as coisas funcionarem.

CRIAR: Ao longo da tua carreira, fala-nos sobre a melhor memória que tenhas tido com o teu manager ou mentor ou até com um amigo, alguém que, ao longo destes anos, realmente te tocou ou te tenha ajudado na grande maioria da tua carreira?

Camilo: Tive várias pessoas que marcaram e ainda marcam a minha carreira, mas houve uma pessoa para a qual voltarei sempre. Foi recente, nos últimos 3 anos. Tive excelentes managers e tive alguns menos bons. Na verdade, quando tens um manager que não te guia da forma que precisas – não é a forma como queres, é a forma que precisas –, tens de encontrar forma de dar a volta a isso. Esse manager foi o que mais conteúdo me transmitiu, conteúdo esse que eu precisava naquele momento e, por essa razão, é alguém que destaco. Foi o meu segundo manager na NIKE, tivemos uma ligação instantânea e bastou algo muito simples para sentir que era o que eu precisava.

Estava a liderar uma equipa de 15 pessoas, portanto precisava da parte da experiência de negócio de “como lidar com 15 pessoas? Como gerir isto? Como gerir o meu stress?”

Quando comecei a trabalhar com ele, disse-lhe “eu preciso de apoio, preciso que estejas do meu lado, sou uma pessoa que precisa de direção, preciso que estejas do meu lado para crescer e para ser bom naquilo que faço.” E ele estava muito feliz por fazer isso. Portanto, todas as terças-feiras íamos andar uma hora. Nós decidimos que íamos andar, não íamos ficar sentados numa sala de reuniões como muita gente faz, vamos andar e falar! Durante um ano e meio, andávamos 1 hora e falámos mais ou menos 90% sobre assuntos pessoais e 10% sobre negócios – ou até menos. Eu estava a liderar uma equipa de 15 pessoas, portanto precisava da parte do negócio “Como lidar com 15 pessoas? Como gerir isto? Como gerir o meu stress?””. Foi uma altura muito desafiante, uma vez que passei de uma gestão de uma equipa de 5 pessoas para o triplo num curto espaço de tempo numa organização de mais de 80 pessoas, e foi necessário alterar todo o sistema de produção de conteúdos digitais da NIKE na Europa. Já tive de lidar com muitas desafios, no entanto, ao mesmo tempo, há momentos em que tendemos a ir abaixo e sentirmos que não conseguimos seguir em frente, mas ele, naqueles 90% ou mais momentos de conversas pessoais, ajudou-me e guiou-me para ser um melhor manager, um melhor profissional e melhor pessoa. Isto faz com que seja alguém a quem vou sempre recorrer. Nem tudo é sobre negócio, é sobre como te relacionas com outras pessoas e, se fores feliz o suficiente para encontrar um mentor, uma pessoa que te guie, primeiro na tua vida pessoal, então vais ser melhor em tudo aquilo que fazes profissionalmente. Não me entendam mal, eu tive outros managers que foram excelentes na parte do negócio, contudo, naquele momento e apenas isso, precisava de alguém que me desse algo diferente, mais pessoal.

CRIAR: A maioria pensa que, para ser bom no seu trabalho, tem de se destacar em alguma competência e esquecemo-nos que trabalhamos com pessoas todos os dias e a todas as horas… gerir relacionamentos, por vezes, é a parte mais difícil. Foi bom teres levantado esse assunto e esperamos que seja parte do que venhas a contribuir para o futuro das equipas que vão fazer parte da CRIAR TEC – ajudar com os aspetos pessoais, como lidar com pessoas.

Camilo: Posso ser mais concreto no que estamos a falar. Quando comecei a minha carreira como manager, estava a gerir pessoas com todos os desafios resultantes disso, diferentes idades, culturas, mentalidades. Não é fácil a diferença de pessoas e, por isso, é extremamente importante saber guiá-las de uma certa forma. Nós temos de ser preparados para sermos melhores neste ponto. Primeiro, somos pessoa e só depois profissionais. Por causa das conversas que tinha com o meu manager, das guias, deste mentorship, comecei a focar o meu trabalho em falar mais com a minha equipa, a nível pessoal. Passava mais de metade da minha semana a conversar com eles. Falávamos sobre “como é que estás?”, “casaste, fala-me sobre isso!” ou “como foram as tuas férias?”. Maioritariamente, eu ouvia e dava espaço para que a nossa relação pessoal ficasse mais forte. Sou um grande fã de “se eu me der bem contigo, se eu criar uma relação contigo”, não estas a trabalhar para um manager, estas a trabalhar para uma pessoa que te respeita e assim estas a trabalhar para um melhor prepósito – precisamos de dar às pessoas um melhor propósito.

Quando não te apercebes de que estás frustrado ou num estado idêntico, não pensas sobre isso e entras em bloqueio.

A minha equipa, na altura, era uma equipa feliz. Por se sentir assim, o trabalho tornou-se mais fácil, arriscava mais, pensava mais frequentemente “fora da caixa” e descobria soluções diferentes daquelas que encontraria se estivesse frustrada ou triste.

Quando não te apercebes de que estás frustrado ou num estado idêntico, não pensas sobre isso e entras em bloqueio. Por isso, passei aquele tempo todo a ter conversas sinceras, espelhei aquilo que estava a obter do meu manager e isto aproximou-me da minha equipa. Exemplo tangente: 40 projetos para 220 projetos por mês, num período de 8 meses – isto é de loucos. Eu acredito mesmo que esta equipa era muito poderosa porque estava feliz, estava super dedicada naquilo que estava a fazer e porque sentia que fazia parte de alguma coisa com significado. Esta é a forma de abordar a minha vida profissional e os projetos aos quais me dedico.

CRIAR: Diz-nos qual a parte mais difícil do teu dia na NIKE?

Camilo: Acho que é o facto de (não) conseguir chegar a tudo. Gosto de trabalhar sob pressão, é como consigo ter maior sucesso, é estar sob pressão e fazer as coisas acontecerem.

Quando estava na Viacom, uma alteração que afetava o consumidor poderia demorar dias a surgir efeito. Na NIKE, e como trabalho imenso no mundo digital, uma mudança acontece numa fração de segundos e, com isso, vem uma carga enorme de pressão. Sou péssimo a gerir o meu tempo, tenho perfeita consciência disso. Faço questão de não ser demasiado crítico comigo mesmo e de melhorar sempre que o posso fazer. Isto não me impediu de crescer na carreira e de chegar onde cheguei, mas sei que a parte mais difícil do meu dia é o facto de ter de lidar com o não conseguir chegar a tudo quando quero. Ao mesmo tempo, este é precisamente o teu trabalho, estar numa empresa em que tudo acontece e tens de conseguir controlar esta sensação e priorizar. Num dia, posso ter 500 e-mails de coisas que tenho de fazer ou responder e a realidade é que não vou conseguir chegar a todos eles. No final, pensas “eu não fiz aquilo que tinha de fazer.”. Esta é, sem dúvida alguma, a parte mais difícil do meu dia na NIKE – o volume de trabalho e lidar com a frustração de, por vezes, não conseguir chegar a tudo e pensar que não fui o melhor “eu” nesse aspeto. É essencial falar desta pressão e emoções no trabalho e no facto de termos de saber lidar cada vez melhor com isso no nosso dia a dia.

Podes pensar que tens a melhor ideia do mundo, e que vais ter imenso sucesso, e, no fim, isso não é a realidade, talvez porque não estudaste o teu mercado, talvez ainda existam algumas coisas nas quais ainda tens de trabalhar.

Se estamos a falar de startups, tudo isto é muito importante também, não pelo volume de trabalho, mas pela forma como construímos as nossas ideias – está tudo ligado. Podes pensar que tens a melhor ideia do mundo, e que vais ter imenso sucesso, e, no fim, isso não é a realidade, talvez porque não estudaste bem o teu mercado, talvez ainda existam algumas coisas nas quais ainda tens de trabalhar. Começas a sentir a pressão e, possivelmente, emoções relativamente a elementos menos bons no teu projeto, criando frustração e o sentimento de que estas a fazer um bom trabalho.
Um bom apoio é crucial para o sucesso de uma ideia, saber lidar com frustrações, com bloqueios e com processos que corram menos bem, é isso que nos faz seguir em frente,  aprender e evoluir. É importante saber falhar para conseguir vencer, saber ultrapassar a parte mais difícil do teu trabalho para que te sintas realizado depois. A partilha de experiências ajudará imenso nesta área porque todos passamos pelo mesmo.

Ser um mentor tem tudo a ver com crescimento pessoal, ligar as pessoas, perceber as suas necessidades, partilhar as minhas experiências

CRIAR: Acho que a pergunta mais importante é: como é que conseguimos retribuir? O que é que podemos fazer? Como é que podemos ajudar-te? Como é que este projeto te pode retribuir algo de volta?

Camilo: Acho que é um processo natural. Primeiro que tudo, estar, de alguma forma, próximo da minha terra natal, dos Açores, é só por si algo fantástico. Estou sempre conectado aos Açores – há algo que nos liga sempre. Aquilo que vocês me podem dar e que eu vos posso dar é exatamente isso, conectar-me com as minhas raízes e poder partilhar o que fui aprendendo ao logo da minha vida. Isso deixa-me imensamente feliz. Além disso, poderei aumentar a minha rede de business, partilhar experiências, discutir ideias e projetos e aprender novas formas de pensar e agir.

Nós vemos as coisas de forma diferente nos Açores e, como saí em 2001, voltar a conectar-me com essa forma de pensar mais ligada à parte empresarial trará, certamente, algo novo ao meu trabalho, agora e no futuro.

Para mim, ser um mentor tem tudo a ver com crescimento pessoal, ligar as pessoas, perceber as suas necessidades, partilhar as minhas experiências. Vou receber a sua insularidade, vou receber a sua força de serem maiores, a sua vontade de fazer algo diferente acontecer, mas com um caminho longo por percorrer. Vou receber isso tudo, aprender e crescer.

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